Desvio de dinheiro das escolas comprou apartamento para filho de Richa

Crente que a melhor defesa é o ataque – e sem mais o que fazer para safar-se das graves denúncias – Beto Richa foi pra cima do delator Maurício Fanini, o amigo camarada desde a faculdade de engenharia. Foi pesquisar os lícitos de Fanini e dosou as penas pelas quais será condenado: “a condenação pelos crimes praticados e por ele próprio confessados chegará a 50 (CINQUENTA) anos de prisão”. Isto é, Richa julgou e fixou a pena de prisão – perpétua, no caso.

A ira do ex-governador e candidato ao Senado contra aquele que o acompanha desde que era vice-prefeito de Curitiba, não se prende somente às propinas para caixa dois das campanhas, mas às que revelam presentes custeados pelo dinheiro desviado da construção de escolas: Fanini afirma que recebeu o primeiro pedido para a compra de um apartamento para Marcello, preste a casar, em março de 2013, por meio de Luiz Abi, primo do ex-governador. A exigência era de R$ 500 mil. O pedido foi atendido, de acordo com Fanini.

Dizendo-se reticente com a solicitação, já que nunca havia tratado sobre o assunto com Abi, Fanini conta que foi falar com o governador, que confirmou que o valor seria usado para complementar a compra do imóvel ao primogênito.

“Sim, pode entregar porque ele [Luiz Abi] e o Ezequias são os mais confiáveis”, diz Fanini no documento, reproduzindo o que Richa teria lhe dito.

O ex-diretor conta que, ao voltar para casa e contar o que havia guardado de dinheiro de propina, notou que tinha somente R$ 300 mil – boa parte arrecadada junto a donos de construtoras que queriam manter contratos com a Secretaria de Educação.

Sem o suficiente para atender ao pedido do governador, Fanini afirma que fez um empréstimo de R$ 99.999,99 junto à Caixa Econômica e o resgate de outros R$ 100 mil de uma aplicação que tinha em nome da empresa dele.

O ex-diretor diz que, em 11 de março de 2013, entregou os R$ 500 mil em uma mala, na porta do apartamento em que morava, a um homem nomeado ficticiamente de Pablo por Abi. O imóvel, segundo Fanini, foi usado várias vezes para entregas de propina.

Uma semana depois, a ex-primeira-dama Fernanda Richa comemorou a aquisição, dizendo que estava muito feliz porque o filho se casaria em alguns meses, afirma Fanini.

Maurício Fanini também relata que, em 28 de junho de 2014, Beto e Fernanda Richa foram à casa dele para acompanhar as oitavas de final da Copa do Mundo entre Brasil e Chile.

Logo após a vitória brasileira, nos pênaltis, Fernanda chamou o filho, André, e a nora, para jantar na casa do ex-diretor, afirma ele. Segundo o relato, o casal viajaria a Machu Picchu, no Peru, no dia seguinte.

Para ajudar nos gastos do casal no exterior, Fanini afirma que a então primeira-dama pediu US$ 1 mil para André. O dinheiro foi prontamente entregue, relata o ex-diretor.

Richa na defesa e no ataque:

Trechos da nota de Beto Richa sobre a delação de Maurício Fanini:

“A proposta de acordo de colaboração premiada de Maurício Fanini ainda se encontra sob sigilo e mais uma vez foi vazada criminosamente.

Esta forma ilícita de agir parece ser uma manobra arquitetada às vésperas do período eleitoral, na tentativa de nivelar todos os políticos por baixo.

Não faço parte desta cena deplorável, onde criminosos confessos buscam envolver pessoas inocentes em crimes que somente eles praticaram.

O que esses criminosos pretendem? Ora, a resposta é muito simples! Pretendem conseguir a redução das penas a que certamente serão condenados pelos crimes cometidos e já confessados à Justiça, mesmo que para isso tenham que envolver pessoas honestas.

No caso de Maurício Fanini, a condenação pelos crimes praticados e por ele próprio confessados chegará a 50 (CINQUENTA) anos de prisão !

Portanto, está mais do que explicado porque Fanini tenta delatar tudo e todos, sem, no entanto, apresentar quaisquer indícios de provas”.

Cícero Cattani (Com informações de Erick Gimenes, José Vianna, Diego Ribeiro, Rodolfo May e Carolina Wolf, G1 PR, Curitiba)